"O poder de fala é uma ferramenta extremamente importante para dar voz às pautas das mulheres"
Andressa Cafarelli
Lutar é preciso
por Luma Cavalcanti
A representatividade feminina, nas mais diversas esferas da sociedade, tem aumentado ao longo dos anos. A partir do momento em que a mulher “sai de casa” e entra no mercado de trabalho, há uma mudança no papel social da mulher, que passa a participar ativamente da vida pública e, consequentemente, luta por mais direitos em busca da igualdade de gêneros. "É importante pensar, porém, o quanto a representatividade das mulheres ainda é desproporcional comparado ao número da população", afirma a cientista social Andressa Cafarelli.
De acordo com o Relatório Global de Desigualdade de Gênero, do Fórum Econômico Mundial (WEF), em 2018 o Brasil foi somente o 90° colocado dentre 144 países analisados. A média de paridade de gênero alcançada foi de 0,681, considerando uma média mínima de 0,0 e máxima de 1,0. O estudo é realizado anualmente desde 2006 e são levados em conta parâmetros de Educação, Saúde, Trabalho e Empoderamento Político.
O Brasil tem avançado, mas oscila anualmente, conforme o relatório. Nos quesitos Saúde e Educação, são levados em consideração o acesso à saúde básica, bem como a taxa de alfabetização e de matrículas. Como estes direitos são garantido a ambos os gêneros, o Brasil possui médias altas nesses parâmetros.
Porém, os quesitos Trabalho e Empoderamento Político ainda precisam melhorar. O parâmetro político oscila anualmente por conta da baixa representatividade nos ministérios e no legislativo, tendo sua maior alta com a eleição de Dilma Roussef para Presidência República. Já o parâmetro do Trabalho reverbera a desigualdade salarial do país, pois mesmo que as mulheres possuam a mesma qualificação que os homens, elas seguem ganhando menos e tendo menos oportunidades em cargos de liderança.
No gráfico abaixo, foram demonstrados as médias do Brasil, desde 2011, em comparativo à Nicarágua, país mais bem colocado na América Latina no Relatório.

Fonte: GGP/WEF. 2018.
A partir desses números, se faz necessária, não somente uma análise, mas também a valorização dos espaços ocupados por mulheres, que visam uma melhoria social e que fazem da sua vida uma luta diária e constante, pois mesmo que oscile, "o número de mulheres na política aumentou consideravelmente, tanto na política mais 'formal', que é a do Estado, quanto nos movimentos sociais", afirma Andressa. Elas buscam melhorias e sociais e fazem jus à representatividade feminina, auxiliando na construção de uma sociedade com paridade dos gêneros.
Pensando nisto, serão abordadas as trajetórias e a participação de três mulheres em distintos movimentos: Evaniza Rodrigues, no MST-Leste 1, Baby Amorim, no Ilú Obá de Min e Bruna Svetlic, na Coordenação de Políticas LGBT da Prefeitura da Cidade de São Paulo.
EVANIZA RODRIGUES
por Natália Hinoue
Evaniza Rodrigues é uma das vozes que dão força ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra Leste 1. Criado em 1987, o MST Leste 1 tem o objetivo de garantir o direito à terra e moradia às famílias de baixa renda da zona leste de São Paulo.
Nascida em São Paulo, Evaniza é formada em Serviços Sociais, com mestrado em Urbanismo. Hoje, trabalha com educação popular, capacitando grupos e produzindo materiais de divulgação. Foi dessa forma que entrou para o movimento há 31 anos e está nessa luta até hoje, apoiando projetos para que o direito de moradia para todos seja uma realidade.

Foto: Gabrielle Melo
“Estamos acostumados com uma cultura individualista e autoritária.
Aqui, propomos um modelo diferente, em que as próprias famílias se organizam”
Evaniza começou sua trajetória no movimento atuando na coordenação executiva da Leste 1. Após terminar o seu mandato, entrou para o apoio ao movimento, onde acompanha os projetos do bairro Parque São Rafael, ajuda na organização e auxilia na construção de pautas com os governos.
O MST Leste 1 tem como metodologia, desde o início do projeto, ajudar as comunidades de base, onde grupos pequenos territoriais discutem a realidade local e se organizam de baixo para cima, de forma autônoma e auto organizacional. “Estamos acostumados com uma cultura individualista e autoritária. Aqui, propomos um modelo diferente, em que as próprias famílias se organizam”, explica.
Um dos trabalhos que Evaniza realiza é a organização de assembleias (vídeo abaixo), onde os candidatos à moradia se reúnem para discutir melhorias para o local. Essa participação gera uma pontuação, que mede o grau de interesse do candidato em conseguir uma casa. Assim, quanto mais reuniões eles vão, mais pontos conseguem pra conquistar a sua residência.
As famílias auxiliadas pelo movimento possuem renda mensal inferior a R$1800 e são pessoas que precisam de políticas públicas para ter uma condição melhor de vida e conseguir viver dignamente. O MST Leste 1 dá autonomia para que cada grupo consiga se organizar, se estruturar, definir suas regras de funcionamento e seus padrões de convivência, para assim, com uma gestão democrática, conquistar o direito à moradia.
BABY AMORIM
por Gabrielle Melo
Baby Amorim é uma mulher negra, lésbica, de 56 anos, casada há 25 e apaixonada pela arte. Uma das fundadoras do projeto Ilu Obá de Min, Baby, como é chamada por todos, atua como coordenadora de projetos e produtora no Ilu, instituição que existe desde 2004 e surgiu através da paixão pela arte e música de um grupo de amigas.
Formada em Química - apesar de nunca ter trabalhado na área - ela conta que sempre foi apaixonada pela arte como um todo, e que a música sempre teve grande espaço em sua vida, principalmente o samba, ritmo o qual ela sempre adorou. Quando era mais nova, participava de fã clubes de artistas brasileiros, e foi na reunião de um grupos de admiradoradores da cantora Zélia Duncan onde conheceu o pequeno bloco carnavalesco Ori Axé, e começou sua trajetória cultural. Por não ter crescido em uma família militante, Baby começou o contato com o ativismo depois que conheceu o bloco: “O toque dos tambores me arrebatou. E me trouxe pra dentro não só de uma bateria feminina, mas para dentro da minha própria história.”

Foto: Natália Hinoue
"O toque dos tambores me arrebatou. E me trouxe pra dentro não só de uma
bateria feminina, mas para dentro da minha própria história."
Foi a partir daí que ela começou a participar dos movimentos sociais, e se tornou uma ativista do feminismo negro. Por conta da participação nesse bloco e nos movimentos, Baby passou a conhecer mais sua própria cultura, desde a história de seus antepassados até as músicas e danças afro brasileiras: “Foi onde eu conheci as culturas populares e mais um caminhão de informações. O debate da questão racial, por exemplo, me aprofundou na história africana. História essa que não está nos livros das escolas até hoje”.
Em 2004, o bloco que serviu de ponta pé inicial para o inicio de sua trajetória, anunciou o fim. Então, Baby e mais algumas amigas juntaram forças para criar um novo projeto e dar continuidade aquela história, surgiu assim o Ilu Oba de Min, em Novembro de 2004, que é também um bloco de carnaval, porém não só isso. No Ilu, existem oficinas, aulas, palestras, conversas, cursos de música e dança e diversos eventos afim de promover a interação da cultura popular de São Paulo com outros estados, e até com outros países. Na sede, o projeto recebe ativistas de diversos países da America Latina para troca de experiências.
O nome causa curiosidade a quem não conhece, e Baby explica: “É uma licença poética. Significa Mãos Femininas Tocam Tambor Para o Rei Xango”.
Na instituição, com sede no bairro do Bom Retiro e conta com a participação de mais de 350 mulheres, Baby é responsável pelo processo inteiro das oficinas que preparam as mulheres para tocar bateria (vídeo abaixo). Os encontros começam em Setembro e vão até o carnaval, no ano seguinte. Apesar de seu amor pelos tambores, Baby optou por não tocar na bateria e cuidar apenas da organização e produção: “Se eu tivesse dentro (da bateria) não estaria inteira. Estaria com o pensamento lá fora, e vice-versa".
Sobre o atual momento do país, Baby contou que quem trabalha com a cultura e arte hoje, não é tratado com dignidade. Para ela, o fato de vivermos em uma sociedade racista, machista e homofóbica faz necessária a presença das secretarias especializadas para que possamos, de algum modo, avançar. No entanto, ainda assim, Baby não se arrepende da dedicação à instituição de ajudou a fundar e finaliza: “O Ilu é o jeito light de lutar pelo nosso ativismo. Com música, dança, e amor. Pela arte”.
BRUNA SVETLIC
por Emilly Martins
Bruna Svetlic, 32 anos, nascida em São Paulo Capital e criada na Grande São Paulo, em Santana de Parnaíba. Aos 18 anos, entrou para a Universidade de São Paulo (USP) e cursou direito. Nesse meio tempo fez intercâmbio em Lisboa, se formando em 2012.
Começou a se engajar no universo LGBT ainda na faculdade, quando se descobriu uma mulher lésbica e cis, passando a criar mais afinidade e empatia com o tema. Desta forma, Bruna se motivou ainda mais na luta pelos direitos da minoria dentro da sigla, com objetivo a espalhar variadas possibilidades de instrumentos para a libertação e empoderamento.

Foto: Emilly Martins
"Cresci muito e pude ver a minha militância crescer.
Tive que aprender mais sobre outras siglas além da minha"
Assim que se formou na faculdade, iniciou sua caminhada, embasada em discussões acerca de mulheres lésbicas e relações não monogâmicas. Quando passou a trabalhar na prefeitura, teve contato direto com a Parada LGBT, participando das reuniões de pauta e planejamento anual do evento.
Ainda na prefeitura, Bruna teve a oportunidade de trabalhar com pessoas portadores de deficiências dentro do público LGBT. Em 2015, descobriu a Coordenação De Políticas para LGBTI da cidade de São Paulo, e tomou para si como meta, pois queria trabalhar e ter vivências reais.
Em 2016, deu início em seu trabalho na Coordenação de Políticas para LGBTI da Cidade de São Paulo, e conta como foi sua experiência, “cresci muito aqui e pude ver minha militância crescer e com isso, tive que aprender mais sobre outras siglas além da minha. Trabalhei duro, estudei com muito afinco e seriedade, o que me tornou uma profissional puramente técnica, e me fez uma peça chave de uma transição de governo”.
Através desse um cargo de confiança, em 2018, Bruna recebeu o convite para se tornar Coordenadora de Políticas LGBTI da Cidade de São Paulo, e conta que foi uma realização, “para mim foi uma honra, fiquei muito feliz quando recebi o convite, pois sabia que ali daria o meu melhor”.
Bruna que sempre lutou por seus ideais, conta “sempre acreditei muito no meu trabalho, uma ética minha, sempre tive minhas próprias metas, então nunca fui filiada a nenhum partido”, o que ocasionou sua saída da Coordenação, em fevereiro de 2019, mas segue trabalhando no mesmo ambiente.
Hoje em dia, sua rotina é participar do desenvolvendo grande parte das políticas LGBTI da cidade de São Paulo, “Aqui nós realizamos a manutenção dos Centros de cidadania LGBTI espalhados na cidade, atendendo às denúncias realizadas em toda a capital. É realizada a coleta e filtração de informações, construindo laudos e desenvolvendo novas políticas”. Conta também sobre uma rede chamada Cidades Arco Íris, que envolve diversas cidades, que se ajudam simultaneamente com as políticas LGBTI, desenvolvendo políticas e planejamentos.
Como projetos futuros, Bruna se mostra feliz com seu trabalho na Coordenação de Políticas LGBTI da cidade de São Paulo, e procura sempre se manter na pauta de direitos humanos. Antes de entrar para a coordenação,sempre teve vontade de estagiar na ONU.
"A permanência das mulheres nos movimentos sociais é extremamente importante, por dar prosseguimento à luta das mesmas, uma vez que por muito tempo ficou a cargo do sexo masculino decidir questões relacionadas às mulheres. O poder de fala é uma ferramenta extremamente importante para dar voz às pautas e reivindicações das mulheres e por tal motivo as mulheres precisam ocupar esses postos e locais, que por muito tempo foram ocupados por homens",
finaliza Andressa.
EXPEDIENTE

Emilly Martins
Texto e Vídeo

Gabrielle Melo
Texto e Foto

Luma Cavalcanti
Texto e Site



